1 de dezembro de 2007



Sempre,
rosário
Novembro 2007


Sempre convivi com a Gracinda pois, quando nasci, ela já lá estava na casa da minha avó.
Acho que comecei a amá-la no preciso momento em que me pegou ao colo pela primeira vez.
A casa da avó era um Mundo e a Gracinda ocupava grande parte dele, com o seu carinho, a sua paciência, a sua generosidade, a sua cumplicidade, a sua dedicação total.
E tinha, para além de nós, uma extrema devoção à sua Nossa Senhora.
Quantas vezes a ouvi rezar o terço enquanto cozinhava e fui com ela à igreja cumprir promessas que ela fazia por mim, quando algo corria menos bem.
Excelente cozinheira, guardo comigo uma infinita memória de sabores, pessoais e intransmissíveis.
Tinha porém um enorme defeito, quase imperdoável: gostava mais do meu irmão do que de todos nós. E um dia, no ímpeto da minha incontrolável revolta dos meus 4 anos, dirigi-me a ela e fui dura:
- Ai gostas mais do meu irmão? Pois vou dizer à avó que te mande embora.
A minha avó morreu, felizmente muito tarde, e a Gracinda regressa à Lousã, depois de 50 anos connosco.
Primeiro foi para um sistema de lar/apartamento e, apesar de muito apreensiva com o regresso depois de tantos anos de ausência, rapidamente começou a desfrutar da nova vida comentando inúmeras vezes que estava a ter "uma velhice regalada".
Sempre bem disposta, comentou comigo um passeio que havia dado:
- Olhe menina, era umas estradas tão direitinhas, tão alcatroadinhas...
Era assim a Gracinda.
Ultimamente já vivia no lar, pois as pernas e a memória deixaram-na mais dependente.
No ano passado, quando a visitei, tive um leve choque ao aperceber-me que ela já não me conhecia, e às minhas primeiras insistências de "não te lembras de mim? Então quem sou eu?". ela responde com a sua enorme educação e elegância:
- Tenha paciência.
Passei com ela uma tarde inesquecível.
A Gracinda tinha esquecido os 50 anos de Lisboa, excepto numa coisa que repetia de quando em vez:
- Nunca tirei um tostão.
Mostrei-lhe fotografias da família, ao que ela se limitou a comentar:
- São todos muito bonitos.
Manifestei-lhe o meu afecto e ela olhava-me de esguelha sorrindo, sem perceber porque é que uma desconhecida lhe dava tantos beijos e abraços.
No final da tarde e à despedida, diz-me:
- A senhora vai voltar a visitar-me?
- Claro que sim- respondi.
Voltei lá este ano. Senti que era a despedida.
- Fiquei mais contente do que eu pensei...- disse.
- Tenho tido tantos beijinhos da menina...- disse.
- Lindinha...- disse.
Esqueceu-se de nós mas nunca se esqueceu da sua Nossa Senhora e quem a visitava, encontrava-a muitas vezes sozinha na capela a rezar.
A Gracinda morreu esta semana e se há coisa de que eu não tenho dúvidas é que a sua Nossa Senhora ansiava há muito por a abraçar.

Sempre,
rosário






9 comentários:

Anónimo disse...

uma noite boa, muitos beijinhos.
g.

joanovsky disse...

Muito bonito.

Olímpia disse...

Fiquei com inveja de não ter tido uma Gracinda na minha vida e, de não ter privado com este amor mútuo.
Se Nossa Senhora ansiava por abraçar a Gracinda, acredita que também a ti ela abraçou.
Obrigada Rosarinho, por este extraordinário texto e, por este lindíssimo blog

inespimentel disse...

Ai, essa Gracinha tão bem escrita, tão bem sentida, tão apetitosa... estas memórias prolongam a vida dos que partiram e enchem de ternura o coração dos que por aqui andamos. Fez-me bem ler este teu belíssimo texto, beijinho.
PS acho que a Graçinha gostava do teu irmão mais do que de vocês e não mais do que vocês... é só um pormenor sem relevância.

rosário disse...

Obrigada.
Segui a tua sugestão.
Também, obrigada!

Maria disse...

Minha querida e saudosa Amiga

Humedecem-me os olhos que transbordando de ternura lida, se enroscam no colo da dita senhora Gracinda.
Escreves e descreves os fortes estados emocionais com uma mestria única, particularmente bonita e luminosa. Digo mesmo que escreves como escreveriam os anjos...se tivessem mãos.

Diz à Gracinda, quando a fores visitar (lá onde só tu sabes)...diz-lhe que gosto dela e dá-lhe um beijo meu.
Paz à sua alma!

Maria

Anónimo disse...

Reaparição de um anónimo...Sempre!

Se me é permitido, volto!

Interessante como as pessoas se semeiam pela nossa vida fora e lá bem no fim sempre ficam num espaço que lhes reservamos como se fizessem parte de nós...recorremos a esse espaço, para que em amenas recordações se nos aflore um sorriso que tantas vezes só faz sentido para nós próprios.

Mas...sempre...os tornamos sempre!

Nem tanto pela história, contada em prosa livre, nem sequer pela Gracinda...mas mais pela autora, que acabo aquele interregno de tempo, que em tempo... me trouxe aqui.

Creio que uma ou outra vez virei espreitar os "bordados" (em ponto quase cruz)

O tal anónimo de outros tempos...

rosário disse...

As palavras às vezes podem ser excessivas e bastante desadequadas.Com o seu "nem sequer pela Gracinda", você toca não só num dos meus afectos, como numa Grande Senhora.Não posso deixar de achar esta parte do seu comentário de uma enorme deselegância.

Anónimo disse...

Sabe que (sabe) bem oferecer uma flor a quem nos mostra uma pedra?

Lamento que não tenha sabido encontrar no primeiro parágrafo do meu comentário a própria Gracinda...

Mas seja,

Até daqui a outro tanto tempo. Enquanto isso vou passear a minha "deselegância" por outros lugares.

Ficar muito bem ...